Um esforço para evitar que as crianças de hoje sofram com as doenças do passado
Por Dr. Arthur Lavin
Em 1979, durante as primeiras semanas do meu internato no Boston Children’s Hospital, cuidei de um menino de oito anos que estava muito doente. Tinha sido infetado por meningococos, uma bactéria que invadiu o seu organismo e provocou um quadro fatal de sépsis. Os pais e eu permanecíamos à cabeceira da cama, a observar o seu coração, que alternava entre batimentos lentos, quase impercetíveis, e um ritmo mais próximo do normal, conseguido através da administração de um medicamento de hora a hora.
No entanto, a infeção já estava numa fase avançada e, ao fim de várias horas, o menino morreu. Nunca esquecerei o seu sofrimento, nem o sofrimento da sua família, que tanto o amava. Até hoje, continuo profundamente grato pelo facto de uma vacina, a vacina contra o meningococo, permitir que os pais e os seus filhos já não tenham de passar por tamanha angústia e dor.
Mas, nos anos que se seguiram à introdução da vacina, aconteceu algo curioso. À medida que os pais, aliviados, vacinavam os filhos e aquelas cenas angustiantes à cabeceira de crianças à beira da morte se tornavam menos frequentes, as pessoas foram-se esquecendo do perigo dos meningococos. Agora, os pediatras estão a alertar para o reaparecimento destas temidas infeções nas crianças.
E não se trata apenas dos meningococos. Em 2000, os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) declararam que o sarampo tinha sido eliminado nos Estados Unidos. No entanto, atualmente, a doença está a aumentar em muitas regiões do país. De acordo com os CDC, os Estados Unidos estão a registar os níveis mais elevados de infeções por sarampo dos últimos 35 anos. Isto é inaceitável.

É uma ironia amarga que o próprio sucesso da vacinação infantil nos tenha levado a esquecer histórias marcantes sobre o impacto doloroso e duradouro que o sarampo e outras doenças infeciosas podem ter. Hoje, percebemos que as vacinas não só podem eliminar a doença, como também apagar qualquer memória dela. Infelizmente, isso pode contribuir para uma menor preocupação com a sua prevenção.
Pela posição única que ocupam na sociedade, os avós podem ajudar a combater esta amnésia coletiva. Tradicionalmente, temos transmitido sabedoria de geração em geração através de histórias reais do nosso passado, que podem ajudar a influenciar as escolhas dos outros. A força das histórias contadas pelos avós vem da profundidade das experiências que vivemos e do amor que sentimos pelos nossos netos.
Foi por isso que, há um ano, ajudei a fundar a Grandparents for Vaccines, uma organização de avós em defesa da vacinação. Como marido, pai, avô e pediatra reformado, assisti a momentos dolorosos que ainda hoje me tiram o sono. Atualmente, não consigo deixar de me perguntar por que razão alguns pais voltariam a expor os filhos a doenças que podem ser prevenidas e que tínhamos praticamente erradicado.
Na Grandparents for Vaccines, reunimos histórias com uma forte carga emocional que podem ajudar as gerações mais jovens a recordar, ainda que através da experiência dos outros, os efeitos devastadores de doenças que os avanços da medicina permitem hoje prevenir. A história de Therese Vogel é um excelente exemplo.

Fotografia cedida pela Grandparents for Vaccines.
Therese, mãe, avó e membro da Grandparents for Vaccines, residente no estado do Oregon, partilhou recentemente a história da sua irmã, Nancy. Aos quatro anos, Nancy sofreu uma infeção cerebral chamada encefalite, uma complicação que pode ser muito grave no caso do sarampo. Infelizmente, a doença provocou-lhe uma deficiência intelectual que a acompanhou durante o resto da vida.
Num vídeo comovente, um dos muitos partilhados no canal de YouTube da nossa organização, Therese expressou o desejo de que nenhuma criança tenha de sofrer como a sua irmã sofreu. A experiência de Nancy com o sarampo mostra-nos que esta infeção pode ter consequências devastadoras. Através da sua história, Therese recorda-nos o que está verdadeiramente em causa e por que razão é necessário continuar a sensibilizar as pessoas para a importância da vacinação infantil.
O poder das vacinas para eliminar doenças ficou definitivamente demonstrado com a erradicação total da varíola. A poliomielite deverá ser a segunda doença humana a ser erradicada, em grande parte graças ao trabalho extraordinário do Rotary International e dos seus membros dedicados e altruístas. O trabalho notável que têm desenvolvido recorda-me a força coletiva de que dispomos para proteger os nossos netos de sofrimentos desnecessários.
E, no entanto, a mesma porta que se está a abrir ao sarampo pode, por incrível que pareça, abrir-se também à poliomielite. Atualmente, milhões de crianças nos Estados Unidos não estão vacinadas contra a poliomielite e poderão contrair a doença se esta alguma vez regressar ao país.
Ao pensar no impacto que isso teria nas famílias norte-americanas, lembro-me de Janice Flood Nichols, outra membro da nossa organização e avó residente no estado de Washington. Quando Jan tinha cinco anos, a poliomielite atingiu o seu irmão gémeo, Frankie. Viu-o ser levado para o hospital e nunca esquecerá a dor que sentiu, juntamente com os pais, quando ele morreu.
Pouco tempo depois, Jan também contraiu poliomielite. Os pais levaram-na para o mesmo hospital onde Frankie tinha acabado de morrer. Jan perdeu a capacidade de andar, mas acabou por recuperá-la. Agora, já numa fase mais avançada da vida, está novamente a perder forças.
Por que razão haveríamos de voltar a expor as nossas crianças à poliomielite, ao sarampo e a outras doenças?
Avós, também gostaríamos muito de conhecer as vossas histórias. Partilhem-nas connosco através do endereço magazine@rotary.org, colocando a palavra «grandparents» no assunto do e-mail.

Pouco tempo depois, Jan também contraiu poliomielite. Os pais levaram-na para o mesmo hospital onde Frankie tinha acabado de morrer. Jan perdeu a capacidade de andar, mas acabou por recuperá-la. Agora, já numa fase mais avançada da vida, está novamente a perder forças. Por que razão haveríamos de voltar a expor as nossas crianças à poliomielite, ao sarampo e a outras doenças?
Enquanto cofundador e presidente do conselho de administração da Grandparents for Vaccines, o meu objetivo é mudar a forma como se fala da vacinação no nosso país, substituindo a confusão e o medo pela confiança e pela proteção. Como pediatra reformado, estou também a incentivar os pais a vacinarem os filhos de acordo com o calendário recomendado pela American Academy of Pediatrics. Não estou sozinho nesta luta. No ano que passou desde a fundação da organização, quase 6.000 membros, de mais de 30 estados norte-americanos, juntaram-se à Grandparents for Vaccines. Estamos a mobilizar as comunidades locais através de palestras, cartas ao diretor e entrevistas aos meios de comunicação social locais.
Estamos também a agir a nível nacional e temos partilhado a nossa história com diferentes públicos através da rádio e da televisão, de artigos na imprensa escrita e das redes sociais. Em setembro, assinalámos o nosso primeiro aniversário com uma campanha nacional de duas semanas de ação, durante a qual doámos livros sobre imunização e ciência a bibliotecas e promovemos uma iniciativa de sensibilização no regresso às aulas.
A Grandparents for Vaccines convida todos a partilharem as suas histórias, a serem voluntários nas suas comunidades e a ajudarem a dar continuidade a este trabalho importante. Tal como o Rotary e os seus membros mobilizaram o mundo para combater a poliomielite, a nossa organização está a mobilizar os avós de todo o país para erradicar as doenças que hoje ameaçam as nossas crianças, como o sarampo, a meningite, a rubéola congénita e outras. Esperamos trabalhar em conjunto não só com os avós, mas também com todas as pessoas que se preocupam com as nossas crianças, com a sua saúde e com o seu futuro.
Arthur Lavin é pediatra reformado, presidente do conselho de administração e cofundador da Grandparents for Vaccines.
Este artigo foi originalmente publicado na edição de outubro de 2026 da revista Rotary.
A história de uma avó
Beth Summer, residente na Florida, tem dois filhos e três netos. «São tudo para mim», afirma, «e, felizmente, estão todos completamente vacinados». Summer partilhou a história do irmão com a Grandparents for Vaccines:
Em 1954, o meu irmão mais velho, Whizzer, contraiu poliomielite. Tinha 16 anos, destacava-se como jogador de futebol americano e aproveitava a vida de um jovem que estava prestes a iniciar um futuro promissor e entusiasmante.

Vítima de paralisia e gravemente doente, Whizzer passou o ano seguinte a entrar e sair do hospital e foi submetido a quase 30 cirurgias. Com perseverança e revolta contra o destino, conseguiu voltar a andar, embora com uma claudicação acentuada, uma pesada e volumosa ortótese na perna e canadianas. A perna ficou atrofiada devido às inúmeras cirurgias e tinha uma longa cicatriz, semelhante a um fecho, que se estendia desde o topo até à parte inferior da perna.
Os meus pais e Whizzer discutiam e gritavam frequentemente um com o outro. Foi uma época tumultuosa, em que a tensão estava por todo o lado. A dor, os gritos. Imaginem a indignação que tudo isto provocava. Devido à recuperação, perdeu o último ano do ensino secundário e não pôde terminar os estudos com os colegas.
Depois de concluir os estudos mais tarde e de uma breve passagem pela universidade, seguiu o seu caminho sozinho, com a ortótese volumosa, as canadianas e um profundo ressentimento. Embora tenha tido muito sucesso profissional e fosse bastante respeitado na sua área, a raiva e a amargura acabavam muitas vezes por afetar a vida familiar, e ele travava também uma luta interior.
Com o avançar da idade, o meu irmão começou a desenvolver a síndrome pós-poliomielite. Acabou por precisar de uma cadeira de rodas. Morreu em 2020, aos 81 anos, e nunca imaginara que viveria tantos anos com as consequências da poliomielite. Teve dois filhos maravilhosos, quatro netos maravilhosos e uma mulher maravilhosa. Os filhos, os netos e a mulher são o seu legado, mas a poliomielite também faz parte dele. A doença marcou o percurso da sua vida.
Conto a história do meu irmão para mostrar como era a vida antes da vacina contra a poliomielite, uma entre tantas vacinas desenvolvidas desde a década de 1950. A poliomielite foi erradicada em praticamente todos os países do mundo. As nossas crianças são o nosso futuro e não podemos abandonar as responsabilidades que temos para com elas. Precisam de estar protegidas contra doenças devastadoras que afetam sobretudo os mais novos. Juntem-se a mim e aos meus colegas da Grandparents for Vaccines e vamos garantir que cuidamos do futuro e do bem-estar das nossas crianças.
Fotografia: Whizzer, irmão de Beth Summer, corta a relva antes de contrair poliomielite. Fotografia cedida pela Grandparents for Vaccines.
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