Usar o jornalismo para promover a paz no Uganda

Usar o jornalismo para promover a paz no Uganda

Por Vivian Agaba, Rotary Peace Fellow de 2026, Makerere University, Uganda

Já alguma vez chegou a uma fase da sua carreira em que se perguntou: «E agora? O que vem a seguir?»

Por vezes, uma oportunidade pode mudar tudo!

Enquanto jornalista no Uganda, tenho acompanhado extensivamente questões relacionadas com os direitos humanos, políticas públicas, desenvolvimento, saúde e educação. Trabalhei também em contextos humanitários. No entanto, ao fim de uma década de carreira, dei por mim a enfrentar uma pergunta simples, mas profunda: o que faço a seguir? Sabia que queria continuar no jornalismo, mas ainda não tinha encontrado a área de especialização que queria seguir.

Uma conversa, uma nova direção

Durante uma visita a uma reunião de um Rotary Club em Kampala, Uganda, em 2022, fui apresentada a uma mulher que também era jornalista. Disse-me que era uma Rotary Peace Fellow dos Camarões e que frequentava o Rotary Peace Center da Makerere University. Quando lhe contei sobre o trabalho que tinha desenvolvido, incentivou-me a candidatar-me à Rotary Peace Fellowship, considerando que seria uma boa candidata. Despertou o meu interesse.

Responder ao apelo da construção da paz

Em 2023, apresentei a minha primeira candidatura a um mestrado num dos centros de paz e participei nas entrevistas, mas não fui selecionada. Não estava disposta a desistir. Nesse mesmo ano, participei numa Capstone Conference na Makerere University. Enquanto observava Rotary Peace Fellows de todo o mundo a fazerem as suas apresentações, fiz uma promessa silenciosa: tornar-me-ia uma Rotary Peace Fellow.

Em 2024, candidatei-me novamente ao diploma de pós-graduação em construção da paz e transformação de conflitos no Rotary Peace Center da Makerere University. Em 2025, fui selecionada, iniciando uma jornada que transformou tanto a minha carreira como a minha perspetiva.

A singularidade da Rotary Peace Fellowship

A 4 de janeiro de 2025, 18 Rotary Peace Fellows de diferentes partes do mundo cruzaram-se às portas da Makerere University para frequentar uma prestigiada fellowship de um ano dedicada à paz.

Durante 10 semanas, o centro de paz da Makerere foi a nossa casa. A diversidade do grupo era a sua força, com diferentes perspetivas. Os meus conhecimentos e competências em construção da paz e transformação de conflitos foram significativamente reforçados ao aprender de que forma os Rotary Peace Fellows, provenientes de diferentes contextos, setores e culturas, aplicavam os seus conhecimentos e diferentes abordagens para enfrentar desafios complexos nas respetivas comunidades.

Para além das enriquecedoras aulas académicas, as visitas de estudo tornam este programa particularmente único. A nossa viagem ao Ruanda aprofundou a minha compreensão sobre as consequências devastadoras do genocídio de 1994, o poderoso papel que os meios de comunicação social podem desempenhar, tanto no desencadeamento da violência como na promoção da paz, e a importância da liderança ética, da reconciliação e de uma comunicação responsável na prevenção de futuras atrocidades.

Também viajámos para o norte do Uganda, onde nos encontrámos com antigas mulheres dos líderes rebeldes da insurgência do Lord’s Resistance Army, que decorreu entre 1987 e 2006. Estas mulheres estão a reconstruir as suas vidas depois de terem enfrentado anos de trauma, o que me recordou que a construção da paz também passa pela cura e pela recuperação da dignidade.

Um ponto de viragem

Durante uma aula sobre o papel dos meios de comunicação social na construção da paz, percebi que tinha encontrado a resposta à minha pergunta: «O que vem a seguir?» O tema era o conceito e a teoria do Jornalismo de Paz e a forma como pode ser utilizado para promover a paz. De imediato, algo fez sentido. Tive a certeza de que aquele era o caminho certo.

Como parte da minha iniciativa de mudança social no âmbito da fellowship, organizei, mobilizei e formei superintendentes superiores da polícia, superintendentes superiores dos serviços prisionais e jornalistas sobre os direitos e responsabilidades de cada um. Abordámos a importância da liberdade de imprensa, as proteções internacionais dos jornalistas e a forma como os ataques aos meios de comunicação social enfraquecem a confiança do público e a transparência eleitoral. A minha iniciativa tinha como objetivo promover uma relação de trabalho cordial e duradoura entre jornalistas e forças de segurança, contribuindo para uma paz e segurança sustentáveis antes, durante e depois das eleições no Uganda.

Nos anos anteriores, as eleições no Uganda foram marcadas por violência, perseguição e intimidação de jornalistas por parte das forças de segurança. A situação agravou-se durante as eleições gerais de 2021. As forças de segurança tiveram particularmente como alvo os jornalistas e foram divulgados mais de 40 casos destes ataques pelos meios de comunicação social e por organizações de direitos humanos.

O meu trabalho contribuiu para os esforços em curso para enfrentar este problema, sobretudo durante um período de elevadas tensões políticas em torno das eleições no Uganda. Durante os nossos encontros, os elementos das forças de segurança comprometeram-se a proporcionar um ambiente mais seguro para que os jornalistas pudessem desempenhar o seu trabalho sem intimidação ou perseguição.

Os nossos esforços deram frutos. As eleições gerais de 2026 decorreram, em grande medida, de forma pacífica. Foram registados apenas cinco casos de ataques de forças de segurança contra jornalistas, em comparação com mais de 40 casos reportados nas eleições gerais de 2021.

O nascimento da Global Peace Journalism Foundation

Comecei agora o processo de registo formal da Global Peace Journalism Foundation. Esta iniciativa nasceu da necessidade de formar uma nova geração de jornalistas capazes de utilizar o jornalismo para reduzir os danos e as tensões e promover o diálogo e a justiça social nas comunidades.

À medida que levo o meu trabalho de construção da paz para um novo nível, acredito firmemente que a paz exige trabalho e esforços coletivos. Pretendo utilizar as ligações estabelecidas em todo o mundo durante a fellowship e também envolver os Rotary Clubs e Rotaract Clubs do Uganda para ampliar o trabalho da minha fundação a nível nacional e internacional. O Jornalismo de Paz é hoje mais necessário do que nunca, porque os conflitos, a desinformação, o discurso de ódio e a polarização propagam-se rapidamente. Uma informação responsável pode ajudar a promover a compreensão, o diálogo e soluções pacíficas.

Incentivaria qualquer pessoa que contribua para a construção da paz a candidatar-se à Rotary Peace Fellowship. Esta oferece muito mais do que crescimento académico: proporciona também ligações internacionais, experiências práticas e competências de liderança necessárias para transformar ideias em ações com impacto, contribuindo para um mundo mais pacífico.

Saiba mais sobre o centro de paz da Makerere. Por ocasião do Dia Internacional da Paz, a 21 de setembro, veja este vídeo no qual Rotary Peace Fellows falam sobre a forma como construímos a paz.

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