A vencedora do Prémio Nobel desafia os membros do Rotary a darem os seus próprios saltos de coragem
No outono de 2017, durante as primeiras semanas como estudante na Universidade de Oxford, Malala Yousafzai saiu sorrateiramente da residência universitária a meio da noite e subiu ao topo da torre sineira do campus. Foi uma proeza que exigiu escapar à deteção, avançar com equilíbrio por telhados e parapeitos de janelas e dar saltos que poderiam ter sido fatais.
“Durante toda a minha vida, as pessoas estiveram a observar-me, certificando-se de que seguia as regras, obedecia às ordens e cumpria o guião”, explica Yousafzai nas suas memórias mais recentes, Finding My Way. “Desde que cheguei à universidade, sentia-me embriagada de independência. Cada escolha, mesmo as más, pertencia-me.”
O salto ousado de Yousafzai na escuridão simboliza tudo aquilo que esta vencedora do Prémio Nobel da Paz, a mais jovem de sempre, e corajosa defensora da educação das raparigas tem representado desde que sobreviveu à tentativa de assassinato pelos talibãs, que quase lhe tirou a vida no Paquistão, em outubro de 2012. Em junho, falou na Convenção Internacional do Rotary, em Taipé. Mais tarde, para um episódio do podcast Rotary Voices, conversou com Yin Khvat, produtor sénior e apresentador do programa semanal de atualidade Taiwan Talks. Entre outros assuntos, falaram da experiência de Yousafzai em Oxford, dos sonhos da sua mãe e da escola para raparigas que criou. De forma apropriada, a conversa começou com uma reflexão sobre a coragem de Yousafzai e terminou com um apelo aos membros do Rotary para que também dessem o seu próprio salto e, tal como ela, fossem ousados.
O que a torna tão corajosa?
Eu não conseguia imaginar um futuro para mim sem educação. As raparigas estão determinadas a continuar a aprender, apesar das dificuldades que enfrentam. Sinto-me agora muito feliz por ter concluído a minha educação e terminado a universidade. Mas, quando penso na menina de 11 anos que eu era, não conseguia acreditar, naquele momento, que isso algum dia seria possível. Por isso, tive de lutar por isso.
Sinto que a melhor forma de combater os extremistas é continuar a capacitar as mulheres. Pensei: “Eles não querem ver uma rapariga instruída, por isso vou tornar-me nessa rapariga. Não querem ver uma mulher com poder, e eu vou tornar-me nessa mulher.” Queriam silenciar uma rapariga por ousar frequentar a escola. Hoje, quero ajudar milhões de raparigas a frequentarem a escola.
O seu pai deu-lhe o nome «Malala», em homenagem a uma heroína e guerreira. O que pensa dessa escolha, três décadas depois?
O meu pai é muito empenhado no apoio às mulheres e às raparigas. Foi professor, ativista, e eu admirava-o. Havia muitas outras raparigas na minha comunidade que queriam aparecer diante de uma câmara e participar no ativismo, mas os pais ou irmãos impediam-nas.
Uma vez, o meu primo estava a queixar-se ao meu pai, dizendo: “A Malala está agora sob os olhares do público, devia cobrir o rosto e não devia participar nestes eventos públicos.” O meu pai disse-lhe para tratar da própria vida e não interferir na minha. Estou grata por ele ter-me defendido. Faz uma enorme diferença ter o apoio dos homens da nossa família, quando eles se tornam nossos aliados.
As cinco irmãs do meu pai não frequentaram a escola. Para ele, eram duas realidades muito diferentes: aquilo que significa nascer rapariga ou rapaz. Foi então que assumiu o compromisso de educar a filha. Deu-me o nome «Malala», em homenagem a Malalai de Maiwand, a heroína afegã, porque queria que eu tivesse a minha própria identidade.

Crédito da fotografia: Monika Lozinska
Há um momento comovente em Finding My Way, quando pergunta à sua mãe quais eram os seus sonhos. Pode falar-nos sobre isso?
Naquele momento, eu estava a decidir se queria casar e perguntava-me como teria sido a vida da minha mãe quando era rapariga. Será que tinha algum sonho? A minha mãe respondeu: “Eu só queria casar com um homem que me pudesse levar até à cidade, onde pudéssemos apreciar a chuva e comer espetadas.” Eu disse-lhe: “Mãe, isso é diferente. Qual era o seu sonho para si própria?” Ela não teve resposta.
Foi então que percebi que existe toda uma geração de mulheres que nunca imaginou que pudesse ter sonhos próprios. Senti-me muito feliz por a minha vida ter sido diferente e isso aconteceu graças aos sacrifícios que fizeram, permitindo-me estar numa posição melhor. Na época delas, não havia escolas secundárias para raparigas. A minha mãe entrou numa escola primária local, mas percebeu que era a única rapariga naquela sala de aula. Vendeu os livros e nunca mais voltou à escola. Espero que tornemos as coisas mais fáceis para a próxima geração de raparigas.
A minha mãe é forte, resistente e corajosa. Ajudou muitas raparigas da nossa comunidade a entrar na escola e protegeu-as de casamentos forçados. Agora, na casa dos 50 anos, frequenta um centro de educação de adultos.
Falemos dos seus anos em Oxford. Falou da liberdade que tinha, mas, ao mesmo tempo, havia enormes pressões. Como foram evoluindo ao longo desse período?
Na escola secundária que frequentei no Reino Unido, tive dificuldade em fazer amigos porque era nova no país e na cultura. Na universidade, desejava apenas ser uma estudante normal, ter muitos amigos e viver momentos de alegria.
No meu trabalho de ativismo, as pessoas faziam-me grandes perguntas sobre como mudar o mundo, o que podíamos fazer pelas raparigas e o que os primeiros-ministros e presidentes deveriam fazer. Sentia que devia ter uma resposta para todas as perguntas. Durante algum tempo, cheguei a pensar que não podia ter amigos, não podia encontrar o amor e que devia ser apenas uma pessoa séria.
Os meus amigos proporcionavam-me conforto. Na companhia deles, não sentia que estava a fazer uma declaração política ou algo semelhante. Estávamos simplesmente a conversar sobre rapazes, a falar de mexericos e de signos do zodíaco. Finalmente, conseguia descontrair.
À medida que cresci, conheci mais pessoas, fiz amigos e encontrei o amor na vida. Percebi que a verdadeira beleza da humanidade está no facto de, quando nos unimos, sermos capazes de encontrar soluções para todos estes problemas. A ideia de que uma só pessoa tem todas as respostas na cabeça é falsa. É uma ilusão. A aprendizagem não se limita aos livros. Aprendemos muito com as pessoas que nos rodeiam.

Crédito da ilustração: Máximo Tuja
Em Oxford, houve uma altura em que estava a ter algumas dificuldades nos estudos, apesar de ser uma defensora da educação das raparigas. Pode explicar-nos o que aconteceu?
A universidade tinha uma dinâmica interessante, porque é preciso estudar, conviver e também dormir. No meu caso, havia ainda outras responsabilidades, como o trabalho de defesa de causas, ganhar dinheiro para a minha família e gerir muitas outras coisas. Lembro-me de, numa semana, ter estado em três países diferentes. Os meus professores ficaram muito preocupados porque eu estava atrasada na entrega dos ensaios, não estava a ter um bom desempenho e quase chumbei nos exames do primeiro ano. Pensei: “Está bem, preciso de encontrar uma forma de equilibrar tudo isto.”
Havia um gabinete de apoio académico e percebi que, muitas vezes, as universidades têm sistemas de apoio. Penso que é importante garantir que os estudantes sabem que esses recursos existem. Ajudou-me muito nos estudos e, no final, consegui encontrar uma solução. Sei que muitos estudantes passam por dificuldades semelhantes. Quero dizer-lhes que não estão sozinhos. Todos passamos por isso.
As suas imperfeições e a sua humanidade fazem de si um melhor exemplo para as raparigas e as mulheres?
É importante dizermos a verdade. Não quero dizer aos jovens que, quando alguém é considerado um exemplo, essa pessoa já tem tudo resolvido. Quando conheço crianças que estão a ler a minha história, quero que saibam que já estive no mesmo lugar que elas. Quando somos jovens, temos curiosidade sobre o mundo e queremos resolver os seus problemas. Existem contratempos e aprendemos que os problemas podem ser muito mais complexos.
A nossa saúde física e mental também é importante. A cada dia que passava, sentia que estava a falhar porque 120 milhões de raparigas não podem frequentar a escola. Existe uma proibição da educação das raparigas no Afeganistão e há tantos desafios. Pensava: “Porque não conseguimos resolver isto num dia? Porque é que esta situação não pode mudar mais depressa?” Não estava a cuidar de mim própria.
Na universidade, comecei a ter ataques de pânico e recordações traumáticas do ataque dos talibãs. A minha saúde mental estava num estado muito difícil. Foi então que comecei a fazer terapia. Ainda bem que o fiz, porque isso mudou tudo para mim.

Por vezes, é difícil pedir ajuda, não é? Essa é uma das lições importantes que quer transmitir?
Eu tinha muita relutância em pedir ajuda e sentia que ninguém conseguia compreender aquilo por que estava a passar. Todos sentimos que a nossa situação é única. A minha terapeuta disse-me: “Não é a única estudante a enfrentar todos estes desafios. As razões podem ser diferentes, mas também existem muitas semelhanças.” Isso deu-me algum conforto.
No meu caso, nunca recebi terapia depois do ataque dos talibãs. Sete anos mais tarde, quando comecei a ter estas recordações traumáticas, percebi que devia ter recebido ajuda muitos anos antes. Tive a sorte de receber apoio e de a terapeuta me ter diagnosticado stress pós-traumático e ansiedade. Essas sessões foram muito importantes para mim e continuo a fazer terapia.
Não é como se tudo tivesse ficado fácil. Também tive muitos ataques de pânico depois disso. O que aprendi foi que tudo vai ficar bem. Vou conseguir. Espero apenas que muitos jovens recebam esta mensagem: vocês vão ficar bem e devem pedir ajuda quando sentirem que precisam dela.
Apoiou escolas no Paquistão e no Líbano com o dinheiro do Prémio Nobel da Paz, certo?
Na verdade, comprámos um terreno na aldeia dos meus pais, Shangla, no norte do Paquistão. Eu tinha um sonho. Disse: “Este é o lugar onde a minha mãe não conseguiu concluir os estudos. É um lugar onde ainda não existe uma escola secundária para raparigas.” Toda a gente dizia: “Fica nas montanhas e é difícil construir uma escola ali.” Pensei que, se conseguíssemos fazê-lo naquele lugar, não teríamos desculpa para não o fazer em qualquer outra parte do país.
Construímos uma escola extraordinária, equipada com tecnologia e instalações modernas, e começámos a inscrever raparigas. No ano passado, tive a oportunidade de visitar a escola e conhecer a primeira turma finalista. Estas raparigas eram incríveis. São muito ambiciosas e corajosas. Falaram-me dos seus sonhos: queriam ser professoras, engenheiras e médicas. Queriam servir a sua comunidade.
Pintavam, jogavam xadrez e praticavam desporto, como o críquete. Também tinham um gabinete de saúde mental. Tal como os outros estudantes, estas raparigas enfrentam muita pressão e têm problemas reais em casa, desde questões de segurança até casamentos forçados. Recentemente, uma rapariga de 14 anos foi obrigada a casar. A administração da escola e a polícia local salvaram-na. Ela continua na escola. Salvámos a vida de muitas raparigas e estamos a ajudá-las a prosseguir os estudos. São exemplos para aquela comunidade e mudaram o futuro das mulheres e das raparigas daquela região.
Que conselhos pode dar aos membros do Rotary que queiram tomar medidas concretas para promover a igualdade das mulheres?
Em primeiro lugar, quero dizer aos rotários que não é a primeira vez que ouço falar deles. No vale de Swat, onde cresci, o meu pai era membro do Rotary. Desenvolvia muito trabalho comunitário, ajudava a limpar o rio, organizava eventos culturais e ajudava as crianças a entrar na escola. Para mim, é como se tudo desse uma volta completa. Todo o trabalho do Rotary chega a tantas partes diferentes do mundo que nem conseguimos imaginar. Quero que as pessoas compreendam o poder que isso representa. Cada ação individual é importante. Nunca se sintam sozinhos quando estão a começar.
Em segundo lugar, é muito importante unirmos esforços, porque assim somos mais fortes do que nunca. Podemos transformar a nossa visão em realidade. Quero agradecer a todos pelo vosso serviço e incentivar-vos a fazer mais, a serem mais ambiciosos e a demonstrarem coragem no trabalho que desenvolvem.
Esta história foi originalmente publicada na edição de setembro de 2026 da revista Rotary.
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