Dos incêndios às flores silvestres

Dos incêndios às flores silvestres

Um ano após os incêndios em Los Angeles, os associados do Rotary concentram os seus esforços na reconstrução da comunidade e da esperança.

Por Laura Randall

Poucas semanas depois dos incêndios florestais que devastaram Los Angeles no ano passado, Claire Robinson começou a trabalhar. Não a reconstruir a sua casa, mas a limpar as áreas ajardinadas queimadas em redor da esquadra do xerife, na duramente atingida comunidade de Altadena. O trabalho físico foi a forma que Robinson encontrou para lidar com a situação e olhar para o futuro. “Queria começar a fazer com que a nossa comunidade se sentisse melhor o mais rapidamente possível, limpando este espaço público”, recorda. “Ser voluntária era a única coisa que me apetecia fazer.”

Mais de um ano depois, as estruturas de centenas de novas casas começam a erguer-se sobre as cinzas, mas essa reconstrução física é frustrantemente lenta e deverá demorar ainda vários anos. Entretanto, voluntários como Robinson concentram-se na reconstrução emocional da comunidade e em preservar o sentido de pertença, as tradições e o otimismo.

Encontrou muitos vizinhos com a mesma forma de pensar, incluindo associados do Rotary. Há vários anos que o Rotary Club de Altadena apoia a organização sem fins lucrativos gerida por Robinson, um grupo de conservação urbana denominado Amigos de los Rios. Quando a comunidade começou a recuperar, na primavera passada, os associados do clube entregaram-lhe um cheque no valor de 2.000 dólares para ajudar a organização a prosseguir o seu trabalho, incluindo a criação de espaços verdes nas escolas e a rega das árvores de grande porte que sobreviveram ao incêndio.

O residente de Altadena e rotário René Amy observa as papoilas-da-Califórnia que florescem no terreno onde se situava a sua antiga casa, em março, mais de um ano depois de esta ter sido destruída pelo incêndio de Eaton.
Crédito da imagem: Frederic J. Brown/AFP via Getty Images

O secretário executivo do clube, Mark Mariscal, que também perdera a sua casa, disse-lhe: “Queremos colocar este apoio nas suas mãos imediatamente. Esta é a sua comunidade; esta é a nossa comunidade”, recorda Robinson. “Isso significou muito para mim.” Atualmente, Robinson está a tratar da adesão da sua organização como membro corporativo do Rotary Club de Altadena.

A recuperação das colinas marcadas pelo fogo, através do regresso dos espaços verdes, faz parte do processo de cura, tanto real como simbólico. Robinson encontra-se nas fases iniciais da reconstrução da sua casa, que em tempos estava repleta de livros e obras de arte. Mas as cinzas e os destroços que cobriam a propriedade deram lugar a manchas de papoilas cor de laranja e outras flores autóctones, resultado de uma gigantesca campanha de sementeira destinada a devolver esperança e beleza aos sobreviventes. Também esta iniciativa foi liderada por um rotário que transformou a sua perda pessoal num incansável serviço à comunidade.

“Vamos reconstruir”

Os ventos de Santa Ana atravessaram extremos opostos de Los Angeles no dia 7 de janeiro de 2025, atingindo velocidades até cerca de 160 km/h e alimentando dois dos mais devastadores incêndios da história da Califórnia. O balanço é impressionante: 31 mortos, mais de 16.000 casas e empresas destruídas, ordens de evacuação para pelo menos 180.000 pessoas e perdas económicas avaliadas em milhares de milhões de dólares.

As zonas mais afetadas foram Pacific Palisades e Altadena, áreas periféricas de Los Angeles situadas junto a zonas montanhosas particularmente vulneráveis aos incêndios. Cerca de uma dúzia de associados do Rotary Club de Altadena perderam as suas casas, tal como aconteceu com praticamente todos os 13 associados do Rotary Club de Palisades.

Ainda assim, os associados afirmam enfrentar esta nova fase da recuperação com um otimismo prudente e, por vezes, até contagiante. As prioridades deixaram de ser encontrar abrigo ou distribuir bens de primeira necessidade e passaram a centrar-se no apoio às pequenas empresas e às escolas, bem como na organização de iniciativas destinadas a reunir novamente os residentes que entretanto ficaram dispersos.

A comunidade está a reconhecer esse esforço. No último ano, o Rotary Club de Altadena recebeu 17 novos associados, aumentando o seu quadro associativo para 53 membros, enquanto o Rotary Club de Palisades passou de 13 para 23 associados. Não é por acaso que os associados apontam a ligação entre as pessoas e a amizade como os principais fatores deste crescimento. “Essa é uma das coisas mais bonitas que nasceram desta tragédia”, afirma Jeff Lemen, associado do Rotary Club de Palisades, que perdeu a casa onde passou a infância.

Em números:

2,7 milhões de dólares – Fundos de apoio angariados nos Distritos 5280 e 5300.

250 milhões – Sementes de papoila espalhadas por Altadena.

3.000 – Participantes na vigília que assinalou o primeiro aniversário dos incêndios, organizada com a participação de associados do Rotary.

Poucas semanas depois dos incêndios florestais que devastaram Los Angeles no ano passado, Claire Robinson começou a trabalhar. Não a reconstruir a sua casa, mas a limpar as áreas ajardinadas queimadas em redor da esquadra do xerife, na duramente atingida comunidade de Altadena. O trabalho físico foi a forma que Robinson encontrou para lidar com a situação e olhar para o futuro. “Queria começar a fazer com que a nossa comunidade se sentisse melhor o mais rapidamente possível, limpando este espaço público», recorda. «Ser voluntária era a única coisa que me apetecia fazer.”

Mais de um ano depois, as estruturas de centenas de novas casas começam a erguer-se sobre as cinzas, mas essa reconstrução física é frustrantemente lenta e deverá demorar ainda vários anos. Entretanto, voluntários como Robinson concentram-se na reconstrução emocional da comunidade e em preservar o sentido de pertença, as tradições e o otimismo.

Encontrou muitos vizinhos com a mesma forma de pensar, incluindo associados do Rotary. Há vários anos que o Rotary Club de Altadena apoia a organização sem fins lucrativos gerida por Robinson, um grupo de conservação urbana denominado Amigos de los Rios. Quando a comunidade começou a recuperar, na primavera passada, os associados do clube entregaram-lhe um cheque no valor de 2.000 dólares para ajudar a organização a prosseguir o seu trabalho, incluindo a criação de espaços verdes nas escolas e a rega das árvores de grande porte que sobreviveram ao incêndio.

Através de iniciativas como este pequeno-almoço, o Rotary procura reunir novamente os residentes que ficaram dispersos.
Crédito da imagem: Laura Randall

Em Palisades, o clube Rotary deu prioridade ao apoio à reconstrução das infraestruturas comerciais e das escolas, explica Lemen. O clube comprometeu-se a financiar a instalação de uma sala de aula ao ar livre numa escola do ensino básico e a substituir mesas e bancos do refeitório de uma escola secundária que, durante quase um ano, teve de funcionar num antigo edifício da cadeia de lojas Sears.

Em Altadena, o objetivo é ajudar a comunidade a regressar à normalidade, afirma o presidente do clube, Brad Roeber. Quando o histórico anfiteatro ao ar livre que acolhia uma popular série de concertos organizados pelo Rotary foi destruído pelas chamas, os associados fizeram questão de que os espetáculos se realizassem, no verão passado, noutro parque. Rotários de clubes de toda a área de Los Angeles apareceram para ajudar e a adesão da população foi extraordinária. “Garantimos que a comunidade não ficasse privada deste momento”, afirma Roeber.

Foi precisamente esse espírito de comunidade e confiança que levou Deb Halberstadt a tornar-se associada do Rotary Club de Altadena após os incêndios. Quando ela e o marido, Jon Hainer, perderam a casa, familiares e amigos responderam com uma enorme generosidade e fizeram donativos superiores àquilo que consideravam adequado aceitar, tendo em conta a cobertura do seguro. Halberstadt percebeu então que o Rotary sabia trabalhar em conjunto com outras organizações para identificar necessidades e fazer chegar rapidamente às pessoas certos materiais essenciais, como purificadores de ar, cobertores e equipamentos móveis de acesso à internet. Encontrou igualmente um espaço de apoio nas reuniões semanais do clube, onde os associados partilhavam boas notícias, informações sobre seguros e outros temas relevantes. “O grupo é muito mais forte do que qualquer pessoa isoladamente quando se trata de ajudar numa situação de desastre como esta”, afirma. “Isso teve um enorme peso na minha decisão.”

Embora a maioria dos residentes de Altadena e Palisades continuasse deslocada, muitos regressaram para participar nas vigílias realizadas por ocasião do primeiro aniversário dos incêndios. Em Altadena, a cerimónia teve lugar no parque de estacionamento de um supermercado pertencente ao casal de rotários Jose e Sandra Valenzuela. Após os incêndios, aquele espaço tinha servido como centro de distribuição de ajuda humanitária. Sob uma faixa onde se lia “Altadena Strong — We Will Rebuild” (“Altadena é Forte — Vamos Reconstruir”), milhares de pessoas reuniram-se para se abraçarem, cantarem e guardarem um minuto de silêncio. “Esperávamos cerca de 600 pessoas. No final, apareceram quase 3.000”, recorda Sandra Valenzuela. “Foi uma imagem inesquecível. Naquele momento, nada mais importava. Éramos todos um só. Estamos aqui uns para os outros.”

O projeto das papoilas

O rotário René Amy espalhou 250 milhões de sementes de papoila para devolver cor a esta paisagem marcada pela tragédia e renovar a esperança da comunidade.
Crédito da imagem: Frederic J. Brown/AFP via Getty Images.

E depois chegaram as papoilas. Com o objetivo de elevar o ânimo da população e devolver beleza à paisagem marcada pelos incêndios, o associado do Rotary Club de Altadena, René Amy, lançou, no outono passado, um ambicioso projeto de sementeira de papoilas.n Há cerca de um século, a flor oficial do Estado da Califórnia cobria todas as primaveras as colinas de Altadena com um intenso manto cor de laranja. Segundo Veronica Jones, associada do Rotary e presidente da Sociedade Histórica de Altadena, a floração era tão impressionante que a zona ficou conhecida como “O Altar de São Pascoal”, numa referência ao frade espanhol conhecido por ajoelhar-se em oração nos campos cobertos de flores silvestres.

Amy divulgou a iniciativa e 750 pessoas e empresas inscreveram-se para ver os seus terrenos “cobertos de papoilas”. Durante cerca de dois meses, percorreu Altadena na sua velha carrinha vermelha, espalhando 250 milhões de sementes de papoilas — um dos poucos bens que sobreviveram aos incêndios. Escuteiros e grupos de conservação da natureza juntaram-se ao projeto, enquanto o Rotary Club de Altadena, empresas locais e o próprio Amy contribuíram com financiamento e materiais.

Durante um passeio de automóvel pelo bairro, no início da primavera, Amy emocionou-se ao ver grupos de papoilas a despontarem nos jardins, nos separadores das ruas e espalhadas pelas encostas. “Como alguém que perdeu a sua propriedade, compreendo perfeitamente o significado de tudo isto”, afirma. “Até o mais pequeno gesto de bondade faz a diferença.”

A poucas ruas dali, Deb Halberstadt e Jon Hainer começaram finalmente a instalar-se na sua nova casa. Em vez de reconstruírem totalmente a antiga habitação, decidiram vender o terreno e adquirir uma casa já existente nas proximidades. A decisão não foi fácil, mas encontram conforto em pequenos gestos, como voltar a pendurar quadros nas paredes da nova casa.

Enquanto observa, do quintal, a ampla paisagem onde o som dos martelos e das obras anuncia um novo começo, Hainer corrige a ideia de que o sentimento dominante seja apenas um otimismo cauteloso. “Eu sinto-me extraordinariamente otimista”, afirma.

Este artigo foi publicado originalmente na edição de junho de 2026 da Revista Rotary.

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