Por Valencia Jones
Foi no parque de estacionamento de um supermercado. Foi ali que senti a minha vida a dividir‑se: a vida de antes e a vida de depois, presa e livre. Uma simples ida ao supermercado — algo que a maioria das pessoas faz sem pensar — tinha sido, para mim, um momento de terror. Observava o relógio com nervosismo. Quanto tempo tinha passado? Tempo suficiente para ele questionar onde eu estivera? Iria levar uma sova ou apenas uma torrente de palavras cruéis?
Agarrei o carrinho de compras e senti aquela pontada familiar de medo, olhando para o relógio e para a longa fila da caixa. Vá lá, anda. Anda! Já no estacionamento, atirei tudo para dentro do carro e entrei. E então caiu‑me a ficha. Não estava ninguém em casa, ninguém à espera. Essa vida tinha acabado. Dentro de um carro cheio de compras, sentei‑me e chorei, simplesmente porque podia demorar o tempo que quisesse — e por tudo o que isso significava.
Conheci o homem que viria a tornar‑se meu marido em 2006. Começou a falar comigo numa bomba de gasolina em Shreveport, Louisiana, a cerca de uma hora e meia de carro da minha casa, em Monroe. Parecia simpático. Trocámos números e começámos a falar ao telefone. De duas em duas semanas, encontrávamo‑nos quando eu ia a Shreveport para consultar um especialista por causa de uma lesão nas costas que sofrera enquanto trabalhava como auxiliar de enfermagem.
Depois de alguns meses, pediu‑me para ir viver com ele. Eu era mãe solteira de três filhos, tinha quase 30 anos e não conseguia trabalhar por causa da lesão. Não teria de me preocupar em voltar ao trabalho ou com dinheiro, disse ele. Em menos de dois anos, casámos.
Olhando para trás, sei agora que foi aí que tudo começou. A manipulação começa no momento em que eles se aproximam de nós. São incansáveis em tentar ser tudo aquilo de que precisamos, a preencher os vazios do que falta na nossa vida. Estás com dificuldades financeiras, és mãe solteira, sentes‑te sozinha. Eles tentam ser a resposta para tudo isso. Sobrecarregam‑te com gestos simpáticos, jantares, flores. Mas eu não sabia disso na altura. Ele parecia simplesmente tudo aquilo com que eu poderia ter sonhado.
Começa com coisas pequenas. Comentários feios, comportamentos controladores, quando já se sentem confortáveis e certos de que nos têm na mão. É difícil explicar aos amigos e à família. Perguntam‑se como é que alguém pode ficar e suportar tal abuso. Mas, como disse, é gradual e vem sempre seguido de uma enxurrada de desculpas. Desculpa ter-te insultado. Desculpa ter atirado aquilo. Fiquei tão zangado porque me importo tanto, sou tão apaixonado. E fica tudo bem até à próxima vez. E há sempre uma próxima vez. Ao longo dos meus 15 anos de casamento, experienciei muitos tipos de abuso.
Agora sei que as categorias de abuso que as pessoas podem sofrer incluem violência verbal e física dirigida à própria vítima, ou danos — ou ameaças de danos — aos seus filhos, animais de estimação ou bens, como forma de magoar e controlar.
Experiências como a minha são mais comuns do que se imagina. Uma em cada três mulheres e um em cada quatro homens sofrerão violência doméstica. Talvez tenhas passado por isso ou conheças alguém que tenha. Talvez tenhas visto sinais noutra pessoa, mas não soubeste reconhecê‑los. Talvez a tenhas ouvido dizer: “Ah, esta nódoa negra? Cai, sou tão desastrada.” Ou talvez evitasse convites para ir ao cinema ou jantar. “Desculpa, não posso, tenho de ir para casa.”
A minha carreira como conselheira
Hoje, trabalho como psicoterapeuta licenciada, especializada no tratamento de pessoas que sofreram violência doméstica ou tráfico humano, bem como adultos que foram abusados sexualmente em crianças. Há um caso que nunca esquecerei. Estava a acompanhar uma mulher cujo companheiro a tinha espancado até entrar em coma e continuava a persegui‑la. Ela conseguiu fugir em segurança para outro estado. Mais tarde, outra mulher procurou ajuda. O seu agressor, viria eu a descobrir, era o mesmo homem. Ali estava eu a ajudar estas mulheres enquanto, ao mesmo tempo, havia um agressor à solta a criar outra vítima. Foi assim que eu, uma sobrevivente de violência doméstica, comecei também a acompanhar agressores, enviados pelos tribunais para tratamento.
“O Rotary elevou a minha autoestima. Deu‑me uma comunidade de apoio e a coragem para me tornar oradora pública e defensora. Deu‑me um novo começo de vida.”
Pode parecer estranho, mas sinto uma certa empatia por estes homens. Muitos deles foram vítimas de abusos horríveis em crianças. Essa era a história do meu ex‑marido. Quando tinha 5 ou 6 anos, o pai chegava a casa bêbedo e violento. Às vezes ele escondia‑se no bosque. Foi magoado e, por isso, cresceu a magoar outras pessoas.
Ouço isso vezes sem conta. Enquanto acompanhava um grupo de homens, perguntei a um deles: “Porque achas que estás tão zangado ao ponto de quereres magoar a tua mulher?” “Bem, não sei”, respondeu. “O meu pai era um monstro, acho eu. Deve ser daí que vem.”
Contou que uma vez o pai tinha espancado a mãe com tanta violência que ele pensou que ela estava morta. Olhei para ele — um homem de 36 anos, acabado de sair da prisão, coberto de tatuagens, cheio de músculos. Estava a chorar e a balançar o corpo para a frente e para trás, como fazia em criança quando se escondia num armário. Eu também chorei. Só conseguia ver o menino assustado de 6 anos. Os outros homens inclinaram‑se para a frente, atentos. Eu disse: “Lamento muito que alguém te tenha magoado. Disseste agora que o teu pai era um monstro. Então porque é que te tornaste o monstro da tua casa?” Houve suspiros na sala. Mais tarde, esse homem voltou para me dizer que tinha mudado de vida, que se tinha alistado na Marinha e que estava a tratar melhor a família.
Não é fácil para mim. Afinal, eles são representações do homem que me abusou. Quando entro na sala pela primeira vez, muitas vezes reagem com raiva ao verem uma mulher como sua terapeuta. Mas quando se abrem e se permitem ser vulneráveis, a cura pode começar. Às vezes partilho a minha história com eles. Depois de uma dessas sessões, alguns dos homens ofereceram‑me palavras de apoio, perguntando como é que alguém poderia querer magoar‑me. E eu disse: “Sabem, é exatamente assim que a vossa mulher se sente.” A minha perspetiva de sobrevivente tem um impacto real neles.
Da dor à cura
Claro que a minha experiência também ajuda no acompanhamento de sobreviventes. Alguns procuram‑me precisamente porque sou uma sobrevivente. Partilho com eles a dor, as lágrimas e os arrependimentos — tudo. Depois lembro‑os de que tiveram a coragem de sair. Faço sempre questão de celebrar a força que demonstraram ao escolher este caminho para a liberdade.
Muitos terapeutas evitam esta área porque é extremamente intensa e as melhorias demoram tempo, por vezes anos. É um percurso longo porque, para começar, é preciso “desprogramar” os pacientes. Eu conheço bem a coreografia dessa manipulação e controlo. Conheço a solidão, a forma como os amigos começam a afastar‑se depois de cancelarmos encontros tantas vezes por medo da reação do agressor ao facto de termos saído de casa.
Com o tempo, deixas de te reconhecer. Deixas de arranjar o cabelo, de te maquilhares ou de te vestires bem. Isso despertaria suspeitas. Aplanas a tua personalidade, não vá ele suspeitar que estás a flirtar com alguém. As tuas conversas tornam‑se neutras e genéricas. Não te entusiasmes, não faças contacto visual. No meu caso, comecei a sentir‑me como um NPC, uma daquelas personagens não jogáveis que passam despercebidas no fundo dos videojogos que gosto de jogar. Sentia‑me apagada.
Mas há algo importante: existe esperança. Existe ajuda e cura. Eu sei isso também. Tudo começa com um planeamento cuidadoso. Sair simplesmente, sem plano, pode colocar‑te em ainda mais perigo. Cerca de 75 por cento dos homicídios relacionados com violência doméstica acontecem após a separação. Estudei conselhos em vídeos online. O meu plano começou por construir independência financeira. Convenci o meu marido a aceitar que eu tivesse um trabalho a tempo parcial e fiz com que o meu salário fosse depositado eletronicicamente numa conta bancária secreta. O meu marido, motorista de camião, passava meses fora, o que me permitiu trabalhar mais. Eventualmente, poupei o suficiente para voltar a estudar e concluí uma licenciatura em psicologia, seguida de um mestrado, o que me permitiu trabalhar como terapeuta e ganhar mais. Entretanto, os meus três filhos mais velhos já eram independentes. Só precisava de cuidar dos dois mais novos, que tinha com o meu marido.
O plano de segurança de cada pessoa é diferente, e algumas conseguem libertar‑se mais cedo do que outras. Para mim, esse dia chegou após anos de preparação; arrumei a casa toda enquanto o meu marido estava fora. Quando ele soube que eu tinha ido embora e lhe disse que queria o divórcio, ele riu‑se, dizendo que era uma fase. Depois vieram as ameaças. Mudei‑me novamente. Mas, no fim, o divórcio foi finalizado. E houve aquele momento no parque de estacionamento do supermercado. Nunca o esquecerei.
A cura é uma longa jornada. Através da terapia, aprendi a reencontrar‑me, a recuperar a minha personalidade, a decidir como quero vestir‑me ou usar o cabelo. Mas uma das primeiras grandes coisas que fiz com a minha liberdade foi juntar‑me a um Rotary Club. O Rotary foi o meu primeiro ato de rebeldia. Um membro desse clube fazia parte da direção de um centro de aconselhamento onde eu coordenava um grupo gratuito para mulheres que tinham sofrido violência. Ele disse que percebia que eu tinha amor pela minha comunidade e convidou‑me a juntar‑me. Foi a primeira pessoa que realmente me viu. Com o tempo, partilhei a minha história com o clube. O Rotary elevou a minha autoestima. Deu‑me uma comunidade de apoio e a coragem para me tornar oradora pública e defensora. Deu‑me um novo começo de vida.
Agora, todos os anos, em outubro, no Mês de Consciencialização da Violência Doméstica, convido algumas dezenas das minhas clientes ou mulheres de abrigos a participar num evento que o nosso clube organiza para as celebrar, com entretenimento, jantar, cocktails e prémios. Os patrocinadores fazem donativos que usamos para apoiar mulheres com terapia, transporte para locais seguros, abrigo temporário, artigos pessoais, mudanças, despesas de subsistência e muito mais. O evento, chamado Illuminate, termina com as mulheres a acenderem lanternas de papel. À luz delas, refletimos em silêncio sobre o quanto todas nós percorremos.
Valencia Jones, presidente cessante do Rotary Club de Riverbend‑Shreveport, é diretora do Social Therapy Project. Sabe mais e envolve‑te em socialtherapyproject.org.
Esta história foi publicada originalmente na edição de março de 2026 da revista Rotary.
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