John Hewko: As organizações cívicas de Chicago detêm uma chave crucial para o futuro da ONU

John Hewko: As organizações cívicas de Chicago detêm uma chave crucial para o futuro da ONU

Este artigo foi originalmente publicado na secção de Opinião do Chicago Tribune © 2025 Chicago Tribune

Por John Hewko

Os Estados Unidos iniciaram oficialmente a sua retirada da Organização Mundial da Saúde (OMS) no início deste ano através de uma ordem executiva presidencial. De acordo com o período de aviso prévio obrigatório de um ano, a saída dos EUA da OMS e a cessação do financiamento entrariam em vigor por volta de 22 de janeiro de 2026.

Ao mesmo tempo, muitos governos estão a afastar‑se do globalismo que definiu a era pós‑Guerra Fria e a reduzir o apoio financeiro às agências da ONU, que enfrentam agora graves insuficiências de financiamento.

Enquanto as Nações Unidas enfrentam uma crise existencial, os grupos comunitários que desempenharam um papel importante na fundação da ONU — e que há muito mantêm parcerias estreitas com a instituição — devem mais uma vez intervir para ajudar o organismo internacional a enfrentar os desafios atuais.

O Brigadeiro‑General Carlos P. Romulo, membro do Rotary, comissário residente das Filipinas junto dos Estados Unidos e presidente da Delegação da Commonwealth das Filipinas, assina a Carta das Nações Unidas numa cerimónia realizada no Veteran’s War Memorial Building, em São Francisco, Califórnia, EUA, a 26 de junho de 1945.
Fotografia cortesia de UN Photo/Yould

O termo “Nações Unidas” surgiu pela primeira vez na Declaração das Nações Unidas de 1942, um documento assinado por 26 nações Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, numa tentativa de evitar futuros conflitos globais. Dois anos depois, delegações dos Estados Unidos, Grã‑Bretanha, União Soviética e China reuniram‑se em Washington, D.C., para desenvolver uma proposta para a estrutura deste organismo global dedicado à paz.

No período que antecedeu a Conferência da Carta da ONU de 1945, muitos norte‑americanos adotaram o isolacionismo “America First” e mostravam ceticismo em relação à governação global. Em resposta, o Rotary e muitas grandes organizações cívicas internacionais receberam do governo dos EUA uma missão crucial: usar o seu alcance global para ampliar o apoio público a uma organização intergovernamental dedicada a promover a cooperação, manter a paz e enfrentar desafios globais. Através de conferências e publicações dirigidas aos seus membros, o Rotary promoveu este conceito visionário de um organismo mundial que prometia “salvar as gerações vindouras do flagelo da guerra”.

Os seus esforços deram frutos. Quando delegados de 50 nações se reuniram em São Francisco, em 1945, para negociar e finalizar o que viria a ser a Carta das Nações Unidas, o Departamento de Estado dos EUA convidou o Rotary e outras 41 organizações não governamentais para atuarem como consultores e assessores técnicos durante as negociações.

Estas ONG não foram meras observadoras. Trouxeram uma defesa persuasiva e conhecimentos especializados que ajudaram a moldar o tratado. O seu papel futuro acabou por ser consagrado no Artigo 71 da Carta da ONU, que autoriza o Conselho Económico e Social a estabelecer canais formais de consulta com ONG. Esta disposição garantiu que a sociedade civil tivesse uma voz institucional dentro do sistema das Nações Unidas.

Embora a ONU tenha inicialmente funcionado sobretudo como um fórum para Estados soberanos, o panorama global mudou de forma dramática ao longo das últimas oito décadas. As organizações cívicas expandiram‑se rapidamente a nível local e nacional — especialmente nos países em desenvolvimento — e hoje representam uma poderosa “terceira força” nos assuntos internacionais.

Nos últimos anos, participei em inúmeras grandes conferências das Nações Unidas. Quase todas elas — quer se centrassem nas mulheres, na segurança alimentar ou nas alterações climáticas — foram acompanhadas por fóruns robustos de ONG concebidos para alargar a participação e ajudar a moldar as agendas globais. Como observou certa vez o antigo secretário‑geral da ONU, Boutros Boutros‑Ghali, “as ONG são uma parte essencial da legitimidade sem a qual nenhuma atividade internacional pode ter significado”.

As organizações cívicas amplificam as preocupações dos cidadãos, monitorizam o cumprimento de acordos internacionais e ajudam a implementá‑los. Fazem a ponte entre a política global e a vida quotidiana através de campanhas públicas, programas comunitários e iniciativas como o Modelo ONU.

Talvez mais importante ainda, trazem escala. O Rotary opera em mais de 200 países e áreas geográficas, mobilizando milhões de voluntários. O Rotary tornou‑se parceiro fundador da Iniciativa Global de Erradicação da Poliomielite em 1988, juntamente com a OMS, a UNICEF e outros. Como resultado desta colaboração, os casos globais de poliomielite diminuíram 99,9 por cento.

Muitas organizações cívicas também alinham o seu trabalho com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, promovendo progressos na desigualdade, alterações climáticas, fome, saúde pública e educação. Promovem a paz ao abordar as causas profundas dos conflitos, como a pobreza, a falta de oportunidades e a injustiça, através de projetos de desenvolvimento conjuntos com agências da ONU e de intercâmbios entre pessoas, incluindo programas para jovens e bolsas de estudo internacionais. Os seus esforços incluem ainda a mediação de diálogos como partes neutras e a prestação de ajuda humanitária.

Neste momento crítico para a ONU e as suas agências, as organizações cívicas devem continuar a fazer aquilo que melhor sabem: educar o público, mobilizar redes de base para apoiar o trabalho da ONU, usar a narrativa para moldar a opinião pública e defender, junto de governos e parlamentos, a manutenção dos compromissos financeiros.

Continuaremos também a colaborar com a ONU, aproveitando as nossas redes no terreno para facilitar o acesso, partilhando conhecimentos especializados em áreas como saúde, alimentação e abrigo, e utilizando a nossa agilidade e confiança comunitária para prestar ajuda durante desastres e conflitos. Do mesmo modo, as ONG podem ajudar a angariar fundos para colmatar as lacunas deixadas pelos governos. Entre 2024 e 2025, o Rotary esteve entre os maiores contribuintes para a Organização Mundial da Saúde.

Num mundo marcado por conflitos e polarização política, as Nações Unidas continuam a ser um farol de esperança para milhões. A OMS incorpora essa esperança através da ciência e da cooperação global contra ameaças à saúde. A nossa parceria de longa data com a ONU demonstra o quão mais forte o mundo pode ser quando cidadãos e governos trabalham em conjunto.

John Hewko é advogado, especialista em políticas públicas e exerce funções como CEO do Rotary International.

— Dezembro de 2025

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