Cuidar de feridas emocionais

Cuidar de feridas emocionais

Casal desenvolveu curso de primeiros socorros em saúde mental

por Betty Kitchener e Tony Jorm | Ilustração: Mike McQuade

A aula começa com o desenho de uma t‑shirt numa folha de papel. Os formandos são convidados a escrever suposições negativas e rótulos que as pessoas tendem a atribuir a um colega de trabalho que está a passar por uma depressão, mesmo sem saberem deste detalhe importante. Entre essas suposições surgem palavras como solitário, preguiçoso, esquivo, pessimista e queixinhas.

Ao realizarem exercícios deste tipo logo no início do curso, que dura dois dias, os participantes desenvolvem uma competência cada vez mais procurada: os primeiros socorros em saúde mental. Para além do conhecimento, ganham confiança para conversar de forma solidária com alguém que esteja a enfrentar um problema de saúde mental recente ou em agravamento, podendo mesmo chegar a situações críticas. O socorrista pode funcionar como uma ponte, encaminhando essas pessoas para serviços de apoio, psicólogos, grupos de suporte ou médicos.

A ideia de criar o curso surgiu enquanto passeávamos com o nosso cão. Com apoio financeiro de membros do Rotary da Austrália, realizámos uma extensa investigação para desenvolver o curso de primeiros socorros em saúde mental, no qual já participaram mais de 8 milhões de pessoas desde o seu lançamento, há 25 anos, através de organizações sem fins lucrativos e entidades governamentais em mais de 40 países. (A cantora Lady Gaga promoveu a formação nos EUA para adolescentes.)

Sou Tony Jorm, professor emérito da Universidade de Melbourne, onde investiguei formas de incentivar mais pessoas a ajudar quem enfrenta problemas de saúde mental. Estudei e testei métodos de consenso científico, a abordagem utilizada para criar diretrizes de primeiros socorros em saúde mental que definem o que dizer — e o que evitar — ao prestar apoio a alguém com dificuldades psicológicas.

O meu nome é Betty Kitchener. Fui professora, orientadora educacional e enfermeira, e durante muitos anos ensinei primeiros socorros na Cruz Vermelha. Tive vários episódios graves de depressão, que começaram na adolescência. Por vezes pergunto-me se os meus pais e professores poderiam ter-me apoiado melhor nessa fase, caso tivessem recebido uma formação como esta, dedicada aos primeiros socorros em saúde mental. Será que esse apoio teria evitado episódios posteriores na minha vida adulta? No entanto, prefiro não ficar presa a essas reflexões, porque aprender a lidar com a depressão e seguir em frente, feliz, ao lado do meu marido, permitiu-nos criar este curso com um currículo assente na empatia e na evidência científica.

Os criadores do curso durante o jantar de 2025 do seu clube, realizado para celebrar o novo ano rotário e a tomada de posse dos dirigentes.
Fotografia cedida por Betty Kitchener.

É muito provável que alguém que conhece tenha — ou venha a ter — um problema de saúde mental, seja um familiar, um colega de trabalho ou um vizinho. Todos os anos, estima‑se que 1 em cada 5 adultos na Austrália sofra de algum transtorno de saúde mental, como depressão clínica, ansiedade incapacitante ou perturbações relacionadas com o consumo de substâncias.

A prevalência de pessoas com transtornos mentais no Canadá e nos Estados Unidos é semelhante: cerca de 20%. A nível mundial, o número ronda 1 em cada 7 pessoas (as estatísticas variam consoante as condições analisadas). Isto faz dos problemas de saúde mental um dos maiores encargos para a saúde pública em todo o mundo. É particularmente preocupante o aumento de adolescentes com problemas mentais em países que recolhem dados fiáveis.

O que os socorristas em saúde mental aprendem em todo o mundo baseia‑se em trabalhos muito semelhantes aos financiados por associados do Rotary. A Australian Rotary Health, gerida pelos distritos rotários do país, concedeu-nos a primeira bolsa de estudo aprofundado sobre o que deveria ser ensinado. Para criar o currículo, recolhemos contributos consensuais de três grupos de especialistas: pessoas que já passaram por problemas de saúde mental, cuidadores e profissionais da área. Apresentámos a estes grupos listas exaustivas de recomendações existentes sobre como prestar apoio fora do consultório e perguntámos: quais destas recomendações são as prioridades mais importantes que desejam que os socorristas conheçam? Pelo menos 80% dos especialistas tiveram de concordar com todas as estratégias de primeiros socorros incluídas no curso.

Tentámos obter mais subsídios da Australian Rotary Health para financiar investigação sobre cursos de ensino à distância e programas destinados a adolescentes. Agrada‑nos saber que os rotários consideram a investigação em saúde tão importante que, ano após ano, angariam quantias significativas para esse fim, através de caminhadas e campanhas comunitárias, apoiando investigadores como nós por intermédio da Australian Rotary Health. Ficámos tão impressionados com este compromisso que acabámos por nos tornar associados do Rotary.

Pode fazer a diferença

De volta à sala de aula e ao exercício da t‑shirt, depois de aprenderem mais sobre depressão, os formandos viram a folha ao contrário para escrever no verso um novo conjunto de frases que expressem o que o “colega de trabalho” com depressão poderá estar a sentir. Entre elas surgem: “Sinto‑me sem esperança”, “Sinto‑me impotente”, “Não sou bom neste trabalho”, “Não consigo concentrar‑me”. Esta atividade é extremamente eficaz para ajudar os socorristas a compreenderem a importância de se envolverem com as pessoas sem as julgar.

Se acha que não se sente preparado para ajudar alguém que enfrenta uma doença mental grave, permita‑me tranquilizá‑lo: as aulas de primeiros socorros em saúde mental destinam‑se a toda a gente. A formação prepara os participantes para intervirem precocemente junto de pessoas com ideação suicida ou ataques de pânico, que estejam desligadas da realidade ou que tenham vivido uma experiência traumática. Em algumas situações, o simples facto de o socorrista estar presente já é suficiente. Os primeiros socorros em saúde mental não substituem o apoio profissional, mas esse suporte inicial é crucial quando o tempo de espera para consultar especialistas é longo e os custos são elevados.

Atualmente, muitos cursos de primeiros socorros em saúde mental são patrocinados por empresas para os seus colaboradores e por universidades para alunos e funcionários. A Mental Health First Aid International, a organização sem fins lucrativos que criámos e que detém os direitos autorais do nosso currículo, tem colaborado com consultores financeiros, advogados cujos clientes enfrentam divórcios ou outros desafios familiares, e profissionais que trabalham na gestão de serviços sociais.

Conselhos surpreendentes

Apresentamos alguns exemplos do treino em primeiros socorros em saúde mental que costumam surpreender muitas pessoas:

Não avance de imediato para a resolução do problema, nem tente convencer alguém em dificuldades a abandonar os seus pensamentos negativos. Se disser a uma pessoa gravemente deprimida para aproveitar o dia bonito, valorizar a família ou apreciar a sua boa situação financeira, pode aumentar o sentimento de culpa que ela já carrega. Ouça com atenção plena e permita que a pessoa fale sobre o que está a sentir, sem a julgar.

• Por vezes, pessoas com ansiedade procuram evitar atividades que consideram stressantes. No entanto, se concordar repetidamente em ficar em casa com a pessoa ou acompanhá‑la para evitar essas situações, pode, sem querer, reforçar a ansiedade. Apoie a pessoa ansiosa e ajude‑a a aprender formas de lidar gradualmente com o desconforto.

• Quando suspeitar que alguém está a ponderar se o mundo seria melhor sem ele, pergunte de forma clara e direta: “Estás a pensar em tirar a tua própria vida?” As evidências mostram que perguntar sobre suicídio é útil e não prejudica. A pessoa com pensamentos suicidas sente‑se mais à vontade para falar sobre eles quando alguém aborda o assunto de forma direta e sem rodeios.

Quando alguém se magoa sem intenção suicida, resista ao impulso natural de centrar toda a conversa na prevenção de ferimentos físicos. Os especialistas aconselham, de forma consistente, a não julgar e a manter o foco no sofrimento emocional que está a levar a pessoa a automutilar‑se, seja através de cortes, queimaduras ou outros comportamentos.

Ao prestar assistência, os socorristas têm em conta a cultura da pessoa. A Mental Health First Aid International utilizou a mesma abordagem de investigação consensual para criar um currículo destinado a povos aborígenes, e as organizações sem fins lucrativos que administram os cursos noutros países desenvolveram diretrizes adequadas a diferentes grupos e contextos culturais. As diferenças podem refletir costumes e terminologia específicos ou incluir vídeos com pessoas com as quais os formandos se identifiquem. Embora existam outros programas que ensinam como ajudar pessoas com perturbações mentais, o compromisso com os mais elevados padrões de investigação distingue o Mental Health First Aid.

Este tipo de primeiros socorros para a mente é apenas uma peça de um puzzle maior, que visa ajudar indivíduos e, de forma mais ampla, reduzir as doenças mentais na sociedade. Muitas pessoas enfrentam uma combinação de fatores de risco que exigem soluções sistémicas, e os primeiros socorros em saúde mental ajudam a destacar alguns dos mais relevantes, como discriminação, pobreza, educação insuficiente e falta de habitação.

Desenvolvemos o nosso modelo inspirados no treino de primeiros socorros físicos, que assenta na norma cultural de que a maioria das pessoas deseja aprender a ajudar alguém com uma lesão ou trauma físico. Muitos fazem cursos de primeiros socorros físicos simplesmente para serem bons cidadãos, por motivos profissionais ou para se sentirem mais preparados no convívio social.

Durante aquele momento de inspiração, no final dos anos 1990, enquanto passeávamos com o nosso cão, perguntámo‑nos: porque não existem primeiros socorros para pessoas com ideação suicida, ataques de pânico, comportamentos de automutilação ou outras condições de saúde mental?

Todos podemos aprender noções básicas, como ouvir sem julgar. Não é necessário ser profissional da área para isso. A sociedade precisa do elevado nível de especialização dos profissionais, mas todos devem possuir competências fundamentais. Muitas pessoas acreditam que a saúde mental dos outros é algo privado e que não devem intervir. Nós defendemos o contrário: estejam atentos e falem abertamente sobre saúde mental.

Afinal, é pouco provável que um psicólogo esteja presente quando um adolescente reunir coragem para admitir que luta diariamente contra a depressão após o fim de um namoro. Mas você pode estar lá.

Um profissional de saúde pode não estar por perto quando alguém revelar que precisa de deixar o álcool ou falar sobre a sua depressão.

Mas você pode estar presente.

Betty Kitchener e Tony Jorm são associados do Rotary Club de Coffs Harbour, na Austrália, através do qual prestam serviços, incluindo a distribuição de livros infantis.

Artigo publicado na edição de janeiro de 2026 da revista Rotary.

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